O meu artigo “O F-LCOE da IRENA e a ilusão da electricidade renovável firme barata — Uma análise crítica à comparação entre renováveis com baterias e tecnologias clássicas firmes”, foi elaborado após a referência feita por João Galamba, no programa da SIC Notícias do passado dia 9 de Maio, ao recente Relatório da IRENA — International Renewable Energy Agency, intitulado “24/7 Renewables: The Economics of Firm Solar and Wind”.
Na minha opinião, essa referência foi feita de forma tecnicamente incorrecta e incompleta, ao sugerir que o Relatório demonstraria, de forma praticamente definitiva, que as soluções renováveis com baterias já seriam claramente superiores, em termos económicos, às tecnologias clássicas firmes. Essa interpretação parece-me incorrecta e profundamente insuficiente.
O Relatório da IRENA tem mérito: reconhece que o LCOE simples da solar fotovoltaica e da eólica já não é uma métrica bastante para avaliar estas tecnologias, pois a produção renovável variável exige armazenamento, sobredimensionamento e soluções de flexibilidade para se aproximar de uma oferta firme. Nesse sentido, a introdução do conceito de F-LCOE — Firm Levelised Cost of Electricity é um avanço metodológico relevante.
Mas o ponto essencial é outro: F-LCOE não é System LCOE.
O F-LCOE continua a ser uma métrica de projecto. Não incorpora, de forma completa, os custos necessários à operação segura de um sistema eléctrico real: redes, estabilidade dinâmica, controlo de tensão, reserva operacional, inércia, serviços de sistema, curtailment, redispatch, black start, adequação de potência, armazenamento de longa duração e capacidade firme.
Por isso, a comparação entre renováveis variáveis com baterias e tecnologias clássicas firmes — hídrica de albufeira, bombagem, ciclos combinados, nuclear, biomassa ou outras soluções despacháveis — só é tecnicamente válida se for feita em termos de equivalência funcional: energia entregue quando necessária, potência firme, estabilidade, reserva e segurança de abastecimento.
Este meu artigo procura demonstrar precisamente isso: as renováveis com armazenamento poderão ter um papel especifico nos sistemas eléctricos futuros, mas não devem ser apresentadas como solução automática, completa e estruturalmente mais barata sem contabilizar todos os custos sistémicos que a sua integração implica.