Cerca de 30 personalidades subscrevem um documento fortemente crítico da aposta do Governo no hidrogénio, lembrando a falta de maturidade da tecnologia e os custos que o país já teve com a subsidiação das renováveis, apurou o Expresso.
Um conjunto de cerca de 30 personalidades, em que se incluem Luís Mira Amaral, Abel Mateus e Henrique Gomes, vai lançar um manifesto contra a aposta do Governo no hidrogénio, considerando que “o país não pode mais uma vez embarcar numa aventura como a estratégia do hidrogénio, que absorverá uma parte significativa dos recursos, financiando projectos sem rentabilidade”, segundo uma versão preliminar do documento a que o Expresso teve acesso.
Luís Mira Amaral, um dos subscritores deste manifesto, declarou ao Expresso que não pode concordar com “estratégias megalómanas de investimentos em tecnologias imaturas e não testadas para passar à fase industrial”.
O antigo ministro da Indústria e Energia já tinha subscrito, no passado, outros manifestos, como o que em 2010 se opôs à subsidiação de produtores eólicos, advogando uma nova política energética para Portugal.
Entre os subscritores do documento estão também o antigo presidente da Autoridade da Concorrência Abel Mateus e o antigo secretário de Estado da Energia Henrique Gomes, bem como pessoas ligadas à Sedes – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, onde o manifesto será apresentado esta quinta-feira, segundo indicou Henrique Gomes ao Expresso.
O novo documento, a que o Expresso teve acesso, intitula-se “Manifesto para a recuperação do crescimento económico e estabilização económica pós-Covid-19”, mas é essencialmente um rotundo “não” ao hidrogénio verde, cuja estratégia nacional, delineada pelo Governo, prevê investimentos de 7 mil milhões de euros até 2030, parcialmente apoiados por fundos nacionais e comunitários e por alguns subsídios, ainda não definidos.
“O que o país necessita é de investimentos produtivos, virados para as exportações, que promovam a modernização e dinamização da estrutura produtiva ou infraestruturas estratégicas, que possam aumentar a produtividade e, assim, reduzir a pobreza e evitar que continuemos a caminhar para a cauda da União Europeia”, refere o manifesto, na versão preliminar consultada pelo Expresso.
“Não se compreende as políticas económicas, energética e a estratégia do hidrogénio propostas pelo Governo num país com cerca de 20% de pobreza, e a necessitar de um forte investimento produtivo para poder aumentar o seu rendimento per capita. Só com projectos viáveis, competitivos, com um adequado equilíbrio no financiamento e na partilha de riscos entre os fundos públicos afectos ao projecto e o investimento privado, que aumentem a competitividade no sector dos bens transaccionáveis se poderá aumentar a nossa taxa de crescimento potencial, garantir empregos bem remunerados e fomentar a coesão económica e social”, defendem os subscritores.
“A política energética, que tem sido apenas um subproduto das políticas ambientais e climáticas, merece-nos uma preocupação especial, perante as propostas do governo e, em especial, a estratégia do hidrogénio”, pode ler-se no capítulo dedicado à energia.
Os promotores do manifesto consideram que a mais valia intrínseca do projeto do hidrogénio “não é justificada” e “aparece como meramente instrumental dos objectivos da descarbonização e da transição energética e que poderá consumir substanciais fundos europeus, o que não é compatível com a utilização desses fundos para apoiarem projectos que promovam a dinamização e modernização da estrutura produtiva, com uma equilibrada partilha de riscos entre o sector privado e o sector público”.
O manifesto alerta que “a eficiência energética da cascata do hidrogénio é muito baixa, o seu manuseamento reveste-se de alta perigosidade, e a dependência destas tecnologias de metais preciosos (platina), torna problemática a sua massificação”.
Os subscritores também criticam os subsídios já dados aos produtores de eletricidade, “alimentando lóbis poderosos, em detrimento da competitividade”.
O manifesto ataca também a aposta feita por Portugal nas renováveis. “O maior erro foi a introdução de tecnologias ainda imaturas, como as eólicas em grande escala e a solar em menor escala, de forma maciça, sem criação de valor acrescentado nacional e emprego”, refere o manifesto (que omite, todavia, que no sector eólico Portugal criou um “cluster” eólico em Viana do Castelo e Aveiro que ainda hoje exporta equipamentos eólicos).
“Entretanto, o preço médio de fornecimento dessas energias renováveis caiu significativamente com a evolução tecnológica ocorrida. Se fosse hoje instalada, o custo seria entre 40 e 60% inferior ao que ainda estamos a pagar pelos 7 000 MW da potência instalada”, aponta o manifesto.
Os seus subscritores avisam que a nova capacidade solar e eólica prevista até 2030 “vai onerar seriamente a capacidade de geração, devido à sua intermitência e falta de adequação aos períodos de maior procura” e “implica a necessidade de centrais redundantes” para responder a essas falhas, “aumentando a quantidade de eletricidade que já hoje é vendida a preço zero no mercado grossista”.
Os subscritores do manifesto realçam que “a Estratégia Nacional para o Hidrogénio (EN-H2) mantém as graves consequências do regime da Produção em Regime Especial que apoiou precocemente tecnologias renováveis intermitentes e imaturas, continuando a apostar em tecnologias emergentes e muito arriscadas para armazenar electricidade à custa dos consumidores”.
O documento contesta o mérito que o Governo atribui ao hidrogénio de substituição de importações de gás natural. “Para um pequeno país de economia aberta não faz qualquer sentido uma estratégia de substituição de importações, e mesmo assim só teria mérito se reduzisse o custo para o utilizador final. Mas não é isso que acontecerá; o custo do hidrogénio injectado, apesar de utilizar a energia solar, custará entre o dobro ou o triplo do gás, pelo que o consumidor final verá a sua factura do gás subir entre 15 e 30%”, aponta o manifesto.
O mesmo documento aponta outros problemas, como a necessidade de autorização de Espanha para injetar hidrogénio na rede de gás natural, já que os gasodutos nacionais estão ligados aos espanhóis, e ainda a ausência de base tecnológica para o uso de hidrogénio em automóveis.
É ainda apontado o problema de acesso à água para a eletrólise em larga escala em Sines. “O processo de eletrólise para fabricar hidrogénio exige grandes quantidades de água pura, que não estão disponíveis na região”, sublinha o documento. A dessalinização agravará o custo do hidrogénio, frisa o manifesto.
O hidrogénio, acrescentam os subscritores, “não gera crescimento económico, pois aumenta os custos de produção para o país”. “A maioria dos investimentos seriam em equipamentos importados da Alemanha e de outros países, cujos produtores estariam evidentemente muito interessados na sua realização. Além disso, não cria emprego nem valor acrescentado nacional significativos”, concluem.